Por Mayara Martins*
Estar na Turquia como jornalista agro foi mais do que uma experiência profissional – foi uma imersão na potência produtiva de um país que, mesmo dividido entre dois continentes, tem no campo uma identidade unificada e estratégica.
Fui convidada pela IFAJ (Federação Internacional de Jornalistas Agrícolas), representando a rede Agrojor Brasil, para acompanhar dois eventos complementares e reveladores: o World Seed Congress 2025, em Istambul, e, na sequência, uma press tour técnica na região de Antália, para conhecer a evolução tecnológica no plantio de tomates e pimentões.
O congresso reuniu mais de 1.600 especialistas de 70 países para discutir o papel das sementes frente aos desafios climáticos. O painel “A resiliência climática começa com as sementes – rumo à COP30 no Brasil” colocou o país sob os holofotes. O produtor Rafael Riedel defendeu que práticas hoje chamadas de regenerativas já são aplicadas no Brasil há décadas, listando o plantio direto, a rotação de culturas e o manejo de cobertura como rotina no campo brasileiro.
A Turquia, que compartilha fronteiras com Ucrânia e Rússia, reforça sua posição como elo entre Oriente e Ocidente. No contexto geopolítico mundial, mais do que um centro de debates, o país é também protagonista em produção: ocupa o 1º lugar mundial em exportações de farinha de trigo desde 2005, com uma produção vegetal que passou de 98 milhões de toneladas em 2002 para 137,4 milhões de toneladas em 2024.
Depois de Istambul, fui a Antália, onde estufas high-tech se espalham por mais de 800 hectares. Visitamos estruturas como a da Özaltın – 12 hectares com aquecimento geotérmico e cultivo protegido durante todo o ano. O destaque ficou para a variedade Klanty, da Syngenta, resistente ao vírus TYL-CV, que tem afetado lavouras em diferentes regiões do mundo.
Mas o que mais me marcou foi o envolvimento direto das famílias. Em uma das visitas, fomos recebidos para um almoço típico na casa de produtores – um gesto simples que revelou como a agricultura está enraizada na cultura e no cotidiano. Em várias estufas, vimos uma divisão prática das tarefas entre membros da família: enquanto um cuida da produção, outro atua nas negociações comerciais. Essa estrutura reforça a imagem de uma agricultura familiar moderna e eficiente.
A visita à Associação de Exportações de Antália revelou a exigência dos mercados internacionais em rastreabilidade e sanidade. O setor de sementes turco, antes incipiente, hoje exporta para mais de cem países e já produz 95% das sementes usadas internamente. Com apoio de programas como o IPARD, mais de 280 mil produtores foram beneficiados com incentivos à modernização.
Voltei com a sensação de que precisamos comunicar melhor o que fazemos no Brasil. A semente é o ponto de partida, mas também pode ser ponte: entre agendas climáticas e produtivas, entre países, entre campo e cidade. O futuro da agricultura será plantado – e ele começa por ela.
*Membro da rede Agrojor e única agrojornalista da America Latina selecionada pela IFAJ para participar do World Seed Congress 2025
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