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O que Lula busca com a viagem à Índia e à Coreia do Sul

Brasil 18/2/2026
Lula Narendra Modi - Brasil Índia
Foto: Ricardo Stuckert/Secom-PR

A diplomacia presidencial nem sempre é simples de decifrar. Mas, desta vez, o roteiro é: Índia e Coreia do Sul. Com uma comitiva numerosa de empresários e ministros, o objetivo é evidente, não colocar todos os ovos na mesma cesta em um cenário global cada vez mais instável.





Os Estados Unidos elevam tarifas e reforçam sua política protecionista. A China, embora ainda seja o maior parceiro comercial do Brasil, impõe exigências sanitárias e comerciais cada vez mais rigorosas, especialmente para proteínas animais. Diante disso, diversificar deixou de ser opção e passou a ser necessidade estratégica.





Índia: volume, energia e fertilizantes





A Índia já não é promessa. É uma potência em crescimento acelerado, com mais de 1,4 bilhão de habitantes e expansão consistente de consumo e energia. Para o Brasil, o interesse é pragmático: ampliar exportações de açúcar, petróleo, minério e proteínas.





Mas há também uma troca relevante. O Brasil busca reforçar a parceria na área de fertilizantes e insumos agrícolas, tema sensível para um país que ainda depende fortemente da importação desses produtos.





A meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2026 é ambiciosa, mas faz sentido dentro dessa lógica de complementaridade.





Agricultura familiar no radar externo





Um dos pontos politicamente relevantes da missão é incluir a agricultura familiar na pauta exportadora. O governo quer mostrar que pequenos produtores também podem acessar mercados internacionais, especialmente com produtos de maior valor agregado, mel, sucos naturais, derivados da mandioca.





É uma narrativa interessante. Para o pequeno produtor, exportar significa ganhar em moeda forte e reduzir a dependência do mercado interno. Mas isso exigirá escala, organização, certificação sanitária e logística eficiente, desafios que ainda precisam ser superados.





Coreia do Sul: tecnologia e investimento





Se a Índia representa volume, a Coreia do Sul simboliza tecnologia. Aqui o movimento é diferente: menos foco em commodities e mais em atração de investimentos industriais.





Semicondutores, inovação, cadeias tecnológicas. O Brasil tenta se posicionar não apenas como fornecedor de matéria-prima, mas como parceiro industrial. Empresas como a Embraer podem se beneficiar dessa aproximação, mostrando que o país também entrega complexidade e engenharia de ponta.





O objetivo maior dessa viagem é reduzir vulnerabilidades. Ao fortalecer laços com o chamado Sul Global, o Brasil tenta diminuir sua exposição às disputas comerciais entre Estados Unidos e China. Não se trata de alinhamento ideológico, mas de cálculo econômico: quanto mais diversificada a pauta e os parceiros, menor o risco sistêmico.





Se os acordos saírem do papel, o país amplia alternativas e ganha margem estratégica. Se ficarem restritos ao discurso diplomático, a dependência continuará concentrada. A viagem pode resultar em fotografia protocolar ou em avanço estrutural, a diferença está na execução.





Num mundo fragmentado e marcado por tensões comerciais, depender de poucos mercados é imprudência. Diversificar não é luxo nem retórica. É condição de sobrevivência econômica.





Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


















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