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Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses

Brasil 20/1/2026

Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.


No início de janeiro, o governo dos Estados Unidos deu início a uma mudança estrutural em suas políticas de saúde pública que altera a rotina de milhões de cidadãos e a operação de corporações globais. O anúncio das novas diretrizes sobre nutrição para o período 2025–2030, realizado ao público no dia 8, em Washington, marca o abandono de modelos anteriores para o estabelecimento de uma pirâmide alimentar baseada em alimentos minimamente processados.


Sob a liderança de Robert F. Kennedy Jr. no Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) e Brooke Rollins no Departamento de Agricultura (USDA), a nova política estabelece o lema central: “Eat Real Food” (Coma Comida de Verdade). A implementação imediata em programas federais de alimentação escolar e assistência social pode trazer à tona um cenário de intensas batalhas judiciais nos próximos meses.



O HHS é um dos órgãos mais poderosos da administração federal, responsável por supervisionar agências como a Food and Drug Administration (FDA) e o Center for Disease Control and Prevention (CDC), principal agência de saúde pública dos EUA. Para o ano fiscal de 2026, a proposta orçamentária prevê gastos de US$ 94,7 bilhões. O secretário Kennedy Jr. descreveu o departamento como uma agência que movimenta US$ 1,7 trilhão por ano ao considerar os gastos totais obrigatórios, como os programas de saúde pública.


O Novo Paradigma Nutricional e a Pirâmide de 2026


A nova tabela nutricional inverte a lógica de consumo que prevaleceu no país desde a década de 1990.  Kennedy e Rollins apresentaram o guia como o “mais significativo reset da política nutricional federal em décadas”. A base da pirâmide agora recomenda o consumo prioritário de proteínas animais e gorduras naturais.


Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses
Anna Moneymaker/GettyRobert F. Kennedy Jr., no anúncio das políticas no Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, em 8 de janeiro

O documento técnico estabelece uma meta de proteína entre 1,2g e 1,6g por quilo de peso corporal por dia — um aumento de até 100% em relação às recomendações mínimas anteriores. O guia inclui carnes vermelhas, ovos e laticínios integrais como fontes essenciais de nutrientes. Os carboidratos refinados e os grãos passaram para a parte estreita do guia, com recomendação de ingestão limitada.


A sustentação técnica do governo para essa mudança reside na contestação da “Hipótese Dieta-Coração”. Em boletim informativo do USDA, publicado no mesmo dia do anúncio, a agência argumenta que a ligação entre gordura saturada natural e doenças cardiovasculares não possui comprovação em ensaios clínicos de larga escala.


De acordo com os pareceres técnicos, gorduras como manteiga e sebo bovino apresentam neutralidade na mortalidade cardiovascular. A estratégia do HHS prioriza a densidade nutricional e a biodisponibilidade de nutrientes como vitamina B12 e zinco, abundantes em produtos de origem animal. Simultaneamente, as diretrizes desincentivam o uso de óleos vegetais industriais, como soja e canola, associando o ácido linoleico à inflamação sistêmica.


É o controle glicêmico que substitui a contagem de calorias como indicador principal de saúde. O governo sustenta que proteínas e gorduras promovem maior saciedade e ajudam na estabilização da insulina. O açúcar adicionado passou a ter recomendação zero para crianças, enquanto o documento limita qualquer refeição a no máximo 10 gramas de açúcar adicionado. Essa abordagem administrativa ignora relatórios de comitês científicos anteriores, sob a alegação oficial de que tais pareceres apresentavam conflitos de interesse com fabricantes de alimentos processados.


Disputas com Organizações de Saúde e Resistência Técnica


A aprovação da nova pirâmide gerou reações imediatas entre as principais organizações de saúde. Em nota oficial emitida no dia 9 de janeiro, a American Heart Association (AHA) manifestou resistência técnica ao modelo. Embora a AHA tenha elogiado a restrição aos açúcares, a organização alertou que o incentivo ao consumo de gorduras saturadas animais contraria o consenso científico sobre riscos cardiovasculares crônicos. A Academy of Nutrition and Dietetics (AND) também registrou preocupação com a ênfase em laticínios integrais, afirmando que a diretriz pode prejudicar populações com intolerância à lactose.


Guerra da Comida: Reestruturação da Nutrição nos EUA Promete Batalhas Judiciais nos Próximos Meses
Brooke Rollins na sede do HHS, em Washington, no dia 8 de janeiro

Pesquisadores da Harvard T.H. Chan School of Public Health publicaram uma análise, também  no dia 9, na qual classificam as metas de proteína como “exageradas”. A instituição argumenta que o foco em fontes animais ignora os impactos ambientais da produção pecuária intensiva e as necessidades de fibras vegetais. Kennedy rebateu essas críticas em pronunciamento no HHS quatro dias depois, afirmando que “as famílias americanas precisam priorizar alimentos densos em nutrientes para reverter a emergência nacional de doenças crônicas”.


Em contrapartida, o Environmental Working Group (EWG) celebrou a nova política. A ONG destaca a decisão do governo de “declarar guerra” aos corantes artificiais derivados de petróleo e aos aditivos químicos. Para o EWG, a diretriz protege a saúde pública ao retirar o apoio governamental a produtos com conservantes sintéticos. O debate pós-janeiro em andamento mostra uma polarização entre a visão metabólica defendida pela atual gestão do HHS e a visão epidemiológica tradicional das grandes associações médicas.


Agenda de Implementação e Perspectivas Judiciais


A agenda de implementação das novas diretrizes tem um cronograma acelerado. A primeira etapa ocorreu com a ativação do portal RealFood.gov e a publicação do “Fact Sheet: Trump Administration Resets U.S. Nutrition Policy”. A fase atual abrange a reformulação dos cardápios do National School Lunch Program, que atende cerca de 30 milhões de crianças.


USDA_DivulgNova tabela alimentar dos EUA

O objetivo é substituir itens como cereais matinais açucarados e leites desnatados com açúcar por refeições compostas por proteínas, gorduras naturais e vegetais frescos. O governo estima que a transição completa dos padrões de merenda escolar ocorra até 2027.


O governo planeja estender as restrições ao Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). A proposta visa impedir que créditos federais financiem a compra de alimentos ultraprocessados. Essa movimentação projeta o início de grandes batalhas judiciais.


Documentos jurídicos de consultorias como Wiley Rein, datados de 5 de janeiro, já indicavam que a indústria de alimentos preparava processos contra o USDA. O argumento das corporações é que o governo excedeu sua autoridade administrativa ao ignorar evidências científicas estabelecidas para favorecer uma agenda política.


O cenário futuro aponta para uma disputa no Congresso e nos tribunais federais que devem recebem muitas liminares judiciais no próximo trimestre. Lobistas da indústria de óleos de soja e cereais atuam para bloquear as mudanças no orçamento de 2026, alegando aumento nos custos de produção. O governo declarou que está preparado para defender as diretrizes com base na redução de gastos de longo prazo com o sistema de saúde, que hoje consome quase 90% do orçamento para tratar doenças crônicas.






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