Forbes, a mais conceituada revista de negócios e economia do mundo.
Por muito tempo, a narrativa sobre o Pantanal foi contada por vozes distantes. Especialistas, com inegável conhecimento técnico, mas frequentemente desprovidos da vivência cotidiana do bioma, pintaram um retrato focado quase que exclusivamente no viés ambiental.
Essa perspectiva, embora importante, é perigosamente incompleta. Ela negligencia um pilar fundamental: a produção sustentável que, por quase 300 anos, tem sido a verdadeira guardiã do bioma mais preservado do Brasil.
A ausência da voz de quem vive e produz na região gera um entendimento distorcido, que pode levar a políticas públicas e a uma opinião pública desconectadas da realidade.
Hoje, uma nova e poderosa voz emerge para contar essa história de forma integral, e ela é feminina. As mulheres do agro, que sempre estiveram presentes na lida, nos bastidores da gestão e na linha de frente do trabalho, agora assumem com força o protagonismo na comunicação.
Elas trazem para o debate a autoridade de quem conhece a terra não apenas pelos mapas e relatórios, mas pelo trabalho diário, pela observação dos ciclos da natureza e pela transmissão de conhecimento entre gerações. Estão, assim, redefinindo a imagem do setor, demonstrando que é possível aliar, com maestria, produção e preservação de uma maneira que apenas quem vive essa realidade consegue articular.
A jornada da mulher pantaneira
Como presidente do Instituto Viva Pantanal, sinto a responsabilidade e o imenso orgulho de ser uma dessas vozes. Minha jornada, assim como a de tantas outras mulheres pantaneiras, é a prova viva de que a sustentabilidade não é um conceito abstrato ou uma tendência de mercado passageira, mas uma prática ancestral, intrínseca ao nosso modo de vida.
Nós, que estamos no campo, gerenciando propriedades, implementando inovações em técnicas de manejo e, crucialmente, educando as próximas gerações, entendemos que a saúde do bioma é, inseparavelmente, a saúde do nosso negócio e do nosso lar. A prosperidade de nossas famílias depende diretamente da vitalidade do ecossistema que nos cerca.
O Pantanal, com mais de 83% de sua cobertura vegetal nativa conservada, um feito notável em escala global, não alcançou esse status por acaso ou por abandono. Foi o resultado direto de um modelo de pecuária extensiva, de baixo impacto, onde o gado, muitas vezes de raças adaptadas como o gado pantaneiro, convive em harmonia com a rica fauna silvestre.
Produtor e produtora rural como agente de conservação
Aqui, os ciclos naturais das águas ditam o ritmo da produção, e o manejo do rebanho respeita a capacidade de suporte do ambiente. Essa é a verdade que precisa ser dita, com clareza e convicção: o produtor pantaneiro, e cada vez mais a produtora, é o principal agente de conservação. Esquecer a produção sustentável ao falar do Pantanal é apagar a história, a cultura e a identidade de seu povo.
As mulheres trazem uma perspectiva única e transformadora para essa conversa. Trazemos a sensibilidade de quem cuida, a resiliência de quem enfrenta os desafios diários com coragem e uma capacidade inata de construir pontes e fomentar o diálogo. Estamos cansadas de ver o Pantanal ser palco de narrativas que nos excluem, nos diminuem ou, pior, nos colocam como antagonistas da conservação.
Acreditamos firmemente em um diálogo que une o rigor do conhecimento acadêmico à profundidade da sabedoria empírica; que valoriza a ciência e a tecnologia, mas também a experiência de quem tem os pés na terra, as mãos no trabalho e o coração pulsando no ritmo do bioma.
O poder da mulher pantaneira
Este é, portanto, um chamado vibrante para que mais mulheres se sintam encorajadas a ocupar esses espaços de liderança, a contar suas histórias com autenticidade e a liderar a comunicação do nosso agro. A representatividade é uma força transformadora.
Quando uma mulher pantaneira fala, ela não fala apenas por si. Ela fala por uma linhagem de avós, mães e filhas que, com sua força e sabedoria, construíram e preservaram este patrimônio para o mundo. Ela fala com a autoridade inquestionável de quem vive, produz e ama o Pantanal em sua totalidade.
Que a nossa voz coletiva ecoe, cada vez mais forte e clara, para inspirar uma nova percepção sobre o agronegócio brasileiro. Uma percepção mais justa, mais completa e, acima de tudo, mais verdadeira.
A luta pela representatividade no Pantanal é, em essência, uma luta pela alma do Brasil, por um futuro em que produção e natureza não sejam vistas como opostos, mas como parceiros inseparáveis. E nós, mulheres, estamos na linha de frente, prontas para liderar essa transformação.
*Tatiana Scaff é pecuarista, proprietária da Agropecuária Scaff e presidente do Instituto Viva Pantanal. Formada em medicina veterinária pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (UNIDERP), ela também possui extensão em marketing do agronegócio pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião de Forbes Brasil e de seus editores.
O post A Voz Feminina do Pantanal: Liderando a Comunicação para um Agro Sustentável e Real apareceu primeiro em Forbes Brasil.
News