Os modelos econômicos usados por governos, instituições financeiras e investidores estão, cada vez mais, subestimando os riscos físicos da mudança climática, segundo uma nova análise.
O relatório, publicado pela Universidade de Exeter, na Inglaterra, em parceria com a Carbon Tracker, organização independente de pesquisa financeira e climática, com sede em Londres, alerta que muitos modelos econômicos não conseguem captar eventos climáticos extremos e a crescente incerteza que tende a dominar os impactos em um mundo em transformação.
O estudo afirma que os danos climáticos são estruturais e cumulativos, não marginais, e acrescenta que os impactos climáticos têm probabilidade crescente de afetar vários setores simultaneamente, à medida que os riscos físicos se propagam por comércio, finanças e migração.
Segundo o relatório, esses impactos não lineares devem remodelar, de forma crescente, economias inteiras e minar as condições necessárias ao crescimento econômico.
O documento aponta ainda que isso entra em choque com uma premissa central de muitos modelos econômicos, que pressupõem crescimento contínuo da economia, ainda que em ritmo menor.
O relatório sustenta que modelos econômicos baseados no Produto Interno Bruto (PIB) podem mascarar os danos totais ao deixar de considerar impactos relacionados à desigualdade, aos ecossistemas e à desorganização social.
Com a temperatura média global caminhando para uma elevação de 2 °C no futuro, o estudo alerta que os impactos se tornarão cada vez mais imprevisíveis, à medida que pontos de inflexão e riscos extremos se intensificam.
O relatório afirma que formuladores de políticas devem ter cautela com cenários climáticos que ultrapassem determinados níveis de temperatura e adotar uma abordagem de “amplo espectro” para avaliação dos riscos.
Jesse Abrams, autor principal do estudo e pesquisador sênior de impacto da Green Futures Solutions, da Universidade de Exeter, afirmou durante uma coletiva recente que os impactos climáticos não estão sendo avaliados de forma adequada nos modelos econômicos atuais.
Abrams acrescentou que isso ocorre porque os modelos atuais dependem fortemente de médias globais de temperatura e partem do pressuposto de que os danos climáticos se comportam como choques pequenos e graduais.
“O problema central é que os modelos econômicos assumem que o futuro se comporta como o passado, apenas um pouco mais quente, enquanto a ciência do clima mostra que estamos entrando em um regime de condições fundamentalmente novo”, disse Abrams.
Segundo o pesquisador, pessoas, infraestrutura e mercados não vivenciam a mudança climática como uma média global suave. Em vez disso, afirma Abrams, a experiência ocorre por meio de eventos extremos, como ondas de calor e enchentes, que podem causar danos enormes “sem praticamente alterar a média global”.
Abrams disse ainda que muitos modelos econômicos assumem que a incerteza permanece relativamente constante. No entanto, à medida que a temperatura média global continua a subir, ecossistemas e respostas sociais tendem a se tornar menos previsíveis.
“Nossos radares de risco climático estão mal calibrados. Estamos subestimando de forma grave o risco para a economia e para a sociedade”, afirmou Abrams. “Já sabemos o suficiente para agir com mais cautela, e esperar por um modelo perfeito ou números mais limpos é uma decisão arriscada.”
Mark Campanale, fundador e CEO da Carbon Tracker Initiative, afirmou, no mesmo evento, que modelos econômicos incorretos de risco também podem afetar o valor e o desempenho de fundos de pensão.
Segundo Campanale, a aceleração dos impactos climáticos deve desorganizar profundamente a economia global e, em vez de crescimento contínuo, fundos de pensão podem enfrentar crescimento negativo.
Ele citou a recente notícia de que uma fileira de casas em uma vila no sul do País de Gales será comprada pela autoridade local e demolida, porque já não pode ser protegida contra enchentes causadas pela crise climática.
Campanale disse que esse caso, assim como as enchentes repentinas recentes no sul da Inglaterra, são exemplos do tipo de dano econômico que deve se tornar mais frequente como consequência da aceleração da mudança climática.
Ele acrescentou que especialistas do setor de seguros alertaram no ano passado que um aumento de 3 °C na temperatura global pode tornar grandes partes do mundo impossíveis de segurar.
“O que queremos ver é que gestores de investimentos e conselheiros acelerem a saída dos combustíveis fósseis em direção a um futuro de baixo carbono, para evitar danos muito maiores aos fundos de pensão no futuro”, afirmou.
Um relatório separado, publicado no ano passado pelo Institute and Faculty of Actuaries e pela Universidade de Exeter, também alertou que muitos formuladores de políticas públicas e instituições financeiras subestimaram os riscos climáticos e seus impactos econômicos.
*Matéria originalmente publicada em Forbes.com
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